CAPITULO II-b

ESTUDO DA NOTAÇÃO GREGORIANA

(Segundo os princípios do «Método de Solesmes» – continuação)

B.– ESCLARECIMENTO SOBRE CERTOS NEUMAS

O «QUILISMA»

O «quilisma» – neuma que se apresenta sob uma forma «dentada» – nunca se encontra só, mas sim e, exclusivamente, nos neumas ascendentes e ocasiona o alongamento expressivo da nota (ou notas) que o precedem; o grupo que engloba um «quilisma» chama-se «quilismático» («scandicus» quilismático, «salicus» quilismático, etc).

          Em sua volta, formam-se, por vezes, grupos neumáticos muito desenvolvidos, que não podem, devido à sua complexidade, ter nomes especiais: com efeito, eles resultam de uma espécie de amálgama de dois (ou mais) neumas que, pràticamente, é fácil de analisar, considerando que o seu desenho melódico forma uma linha quebrada, em cujo ponto de intercepção se encontra uma nota suposta comum a dois neumas, na qual se opera a sua fusão.

Exercício de leitura:

·        «Gloria IV» (in: «Glorificamus Te»);

·        e «Sanctus V» (o 2.º «Sanctus», ut infra):

·        «Kyrie XV» (última invocação):

·        Intróito «Rorate» (do IV.º Domingo do Advento, in: «desuper»):

·        no Intr. «Puer natus» (Missa do dia de Natal, in: «Angelus»):

O «ORISCUS»

O «oriscus» é um «apóstrofe» junto da última nota de um neumaem uníssono – e, geralmente, sob a forma de um «punctum»; ou, no grau imediatamente superior, sob a forma de uma «virga».

No primeiro caso, a nota assim obtida – por esta ser aposição – não deve ser confundida com o «pressus», cuja execução admite, em muitos casos, uma ligeira intensidade:

* do «Kyrie IX» – “cum Iubilo” (Ed. Vat.):

Para evitar confusões entre os termos «pressus» e «oriscus», convém notar que:

* o pressus não é uma nota, mas uma combinação de notas;

* o oriscus é uma nota;

* o pressus compreende sempre duas notas em uníssono;

* o oriscus não é, forçosamente, do mesmo grau que a nota precedente;

* o pressus é sempre seguido, pelo menos, de uma nota pertencente ao mesmo grupo da 2.ª nota;

* o oriscus não pode ser seguido senão por um novo neuma;

* a primeira nota do pressus é sempre íctica.

* o oriscus nunca é íctico: em todos os casos, é sempre a nota precedente que recebe o «ictus».

          Nos casos de «oriscus» no grau superior, Solesmes marcou com episema vertical a nota que o precede. Portanto, a expressão por vezes empregue “grupo oriscus” não é exacta (deve notar-se que o «oriscus», na Edição Vaticana, já não tem forma especial; a este propósito, se recorda, no entanto, que os neumas chamados «resupinus» se terminam, realmente, por um «oriscus» no grau superior, traduzido por um «punctum»).

Exercícios de leitura (peças a consultar no «Liber Usualis»):

«ORISCUS» EM UNISSONO:

«ORISCUS» NO GRAU SUPERIOR:

* «Kyrie IX» («Christe» e último «Kyrie», ut supra);

* Intr. «Gaudete» (do III.º Dom. do Advento);

* «Sanctus XI» («terra»);

* Alleluia «Vidimus» (da Solenidade da Epifania);

* Comm. «Vidimus» (da Solenidade da Epifania).

* Hino da Solenidade da Ascensão.

– Comparação entre «pressus» e «oriscus», em uníssono:

·        « Kyrie XIV»:

·        Gradual «Ex Sion» (do II.º Domingo do Advento):

·        Intr. «Puer natus» (in: «datus» e «nobis»), da Solenidade do Natal (Missa do dia):

NEUMAS ASSIMILADOS AO «SALICUS»

O neuma constituído por um «podatus» de quinta (ou de quarta), íctico sobre a 2.ª nota e seguido de uma «virga» no grau superior é – segundo Dom Mocquereau – a contracção de dois «podatus» e deve ter, na nota íctica, um alargamento expressivo, pelo menos, igual àquele que se dá à nota íctica do «salicus».

OUTROS EXEMPLOS:

·        Antifona «Ave, Maria» (II. Vésperas de 25-MAR – consultar o «Liber Usualis»: – trata-se de uma entoação típica das peças de I.º modo, ut infra):

·        Resp. de VII.º modo «Recessit Pastor noster» (de Matinas de Sábado Santo – consultar o «Liber Usualis»):

·        Hino «Sacris Solemniis» (da Solenidade do Corpo de Deus):

«Podatus» de quarta:

·        Antífona «Luciferum» (II. Vésperas da Epifania – consultar o «Liber Usualis»);

·        Intr. «In voluntate Tua» (do XXI.º Dom. depois de Pentecostes, in: «et non»):

OS «NEUMAS DESAGREGADOS»

São grupos de, pelo menos, três notas, melòdicamente diferentes, precedidos de um «punctum» inferior à sua primeira nota e, separado dela (Ofert. «De profundis», do XXIII.º Dom. depois de Pentecostes, in: «profundis»).

Esse «punctum» coincide com a emissão de uma sílaba e recebe o «íctus rítmico», em vez do grupo neumático que o segue. Além disso, sofre um alargamento expressivo, equivalente àquele que afecta a nota que precede o «quilisma».

De facto, o neuma começa no «punctum» isolado.

Este processo de desagregação tem um significado rítmico; dá-se aqui uma modificação da forma gráfica habitual dos neumas, à qual se fez referência anteriormente, e que os copistas utilizavam para transcrever o ritmo: não empregaremos, portanto o termo «neuma praepunctis», pois não indica a unidade real do neuma a que pertence o elemento isolado (a «Revista Gregoriana» – Nº.s de Setembro/Octubro, Novembro/Dezembro de 1951 e Janeiro/Fevereiro de 1952 – publicou um estudo documentado sobre «desagregação neumática». Podem ser feitas referências, mas evitando querer descobrir neumas desagregados em todo o lado, da imperfeita Edição Vaticana, pelo que, para nós nos bastam as indicações gerais mencionadas ut supra).

EXEMPLOS:

·        «Agnus Dei II» (in: «mundi» e «miserere»):

·        Antífona «Vidi aquam» (in: «dextro» e «dicent»):

 (no «Liber Usualis»: comparar com «monte» e «potest», do Resp. «In Monte Oliveti», de Quinta-Feira Santa):

·        Intr. «Ad Te levavi» (do I.º Dom. do Advento: «exspectant»):

·        Tractos de VIII.º modo (fórmulas típicas):

ALGUNS SINAIS PARTICULARES:

AS «BARRAS»

Em canto Gregoriano, as «barras» não são, de modo algum, «barras de compasso», como na notação moderna, mas sim verdadeiros sinais de pontuação musical, que assinalam os momentos cuja respiração é mais ou menos importante, segundo o(s) caso(s):

O «quarto de barra» («divisio minima») indica o fim de um inciso e determina uma ligeira respiração – que tem, muitas vezes, um carácter facultativo – mas que, em todos os casos, deve ser tomada sobre o valor da nota que precede.

          A «meia barra» («divisio minor») indica um fim de membro e determina uma respiração obrigatória, tomada sobre o valor da nota que precede.

          A «grande barra» («divisio maior», ou «barra inteira») indica o fim de uma frase, anunciado por um ligeiro abrandamento do andamento. A nota que precede esta barra – e que tem sempre um ponto mora – é sustentada, inteiramente, nos seus dois tempos: a respiração faz-se, então, durante o silêncio de um tempo simples, se a nota que se segue à barra não for íctica, ou o silêncio de dois tempos simples, no caso de a nota a seguir à barra ser íctica:

          Portanto, a cada «barra inteira», um «íctus» coincide no silêncio. Depois da barra, o movimento retoma «a tempo».

          A «barra dupla» («divisio finalis») indica o fim de um período, pressentido por um «rallentando», correspondente à importância e ao carácter da peça, ou a alternância de dois coros.

A «vírgula» (representada na figura ao lado) é um sinal de respiração facultativa, tomada sobre o valor da nota que precede. A pausa mínima que distingue, em certos casos, dois incisos – ou duas fracções do mesmo inciso – é indicada por um episema horizontal, que, nestes casos, provoca uma cadência absolutamente secundária, sem respiração.

O «BEMOL»

          O canto Gregoriano é, por definição, de género diatónico (há que saber que a «escala diatónica» é uma série de sete sons, que procedem por intervalos naturais, que se chamam «tons» e «meios-tons»: entre todas as notas desta escala, há o intervalo de um tom, excepto de MI a FA e de SI a DO, que é de «meio-tom»).

          Uma só alteração se permite, que consiste em trasladar o meio-tom do último grau (SI-DO) para o penúltimo (LA-SI) e isto indica-se por meio do «bemol».

          O «bemol» é colocado antes da nota por ele afectada, ou – quando, tipogràficamente, seja impossível – antes do neuma que contém essa alteração. A única nota em que é possível colocar o «bemol» é, em canto Gregoriano, o SI.

          O «bemol» é válido:

·        até ao aparecimento de um «bequadro» (no Gradual do XVII.º Dom. depois de Pentecostes, in: «Domini» – o «bemol» da 1.ª sílaba é anulado pelo «bequadro» da última);

·        até ao final de uma palavra: no Communio do IV.º Dom. depois da Páscoa, o SI de «ra» (Paraclitus) torna-se «natural» depois de «ne» (venerit), por se passar de uma palavra a outra;

·        até ao final de subdivisão barra», «meia-barra», ou «quarto-de-barra»): «Alleluia» do I.º Dom. do Advento, in: «tuum», o «quarto-de-barra» anula o efeito do «bemol», sobre a mesma sílaba (Pierre Carraz).

O «ALGARISMO», COLOCADO NO INICIO DO CANTO

          O canto Gregoriano é diatónico e modal, contando oito modos: o algarismo – ou caracter Romano – colocado no começo de uma peça Gregoriana indica o modo de cadência final desse mesmo trecho musical; nas antífonas que sejam seguidas de Salmódia, indica também o respectivo tom Salmódico.

O «GUIÃO»

O «guião», quando colocado:

·        à direita da clave (nalgumas edições) indica a dominante do modo;

·        na extremidade do tetragrama, indica a nota que está no começo do tetragrama seguinte;

·        antes da mudança de clave, no decorrer de certos cantos, indica a primeira nota a ler na nova clave:

O «ASTERISCO»

          O «asterisco» [*] indica:

·        o fim da entoação (por um solista, ou uma pequena «schola»);

·        o momento em que o Coro se junta ao(s) solista(s), no fim dos Versículos;

·        a alternância de dois Coros, nos vocalisos desenvolvidos (por ex., última invocação do «Kyrie IX» – cum Iubilo);

·        a pausa, na cadência média dos Salmos.

O «duplo asterisco» indica o momento em que todo o Coro se junta – após a alternância de dois Coros –, tal como foi referido ut supra.

AS «LETRAS»

·        Os caracteres «ij», «iij» (que são algarismos Romanos) significam que deve cantar-se duas, ou três vezes o fragmento precedente;

·        Os caracteres «e, u , o, u, a, e» correspondem às palavras latinas «saeculorum. Amen», no fim dos Intróitos e das Antífonas do Ofício Divino, para a adaptação da terminação dos Versículos dos Salmos.

TITULOS DAS MISSAS DO «KYRIALE ROMANUM»

E’ frequente ver, no início das Missas do «Kyriale», inseridos alguns títulos, tais como:

«Lux et origo», «Fons bonitatis», «Cunctipotens Genitor Deus», «cum Iubilo», «Alme Pater», «Orbis Factor», «Pater cuncta», «Dominator Deus», etc.

Esses títulos ficaram dos «tropos» (ou palavras) que foram introduzidos nos grandes vocalisos dos «Kyries», chamados, por esse motivo, «Kyrie farcis», ou seja, «Kyries recheados, ou misturados»: a razão invocada foi o facto de que o povo, difìcilmente reteria os longos vocalisos dos «Kyries»; assim, foram reduzidos a um silabismo que não deixou de exercer influência na decadência do ritmo e, por consequência, no próprio canto Gregoriano.

O «tropo» mais conhecido é o do «Kyrie Fons bonitatis».

AS INDICAÇÕES CRONOLOGICAS

          As indicações cronológicas que se encontram no «Kyriale» não se referem à época da composição da música, mas sim à do manuscrito do qual foi sacado o texto reproduzido pela Edição Vaticana.


OBSERVAÇÕES DE NATUREZA PEDAGOGICA

          O trabalho de estudo e conhecimento dos neumas deve ser feito ao mesmo tempo que o solfejo Gregoriano, recomendando-se muy especial atenção, no que respeita à regularidadeisocronismo – dos tempos simples.

          O estudo progressivo da notação Gregoriana não pode ser fatigante. Uma exposição completa proviria de estudos semiológicos, se bem que, de momento, basta que o aluno possa ler, no texto da Ed. Vaticana – tal como o tem entre mãos – as indicações indispensáveis a uma boa execução de conjunto, correcta e estética. Contudo, convém saber, desde logo, que a transcrição Vaticana contém inúmeras imperfeições: dístrofes e trístrofes erradas, pressus e scandicus errados, «si bemóis» que, de facto não o são, etc., que sòmente os paleógrafos poderão distinguir, recorrendo à referência feita aos manuscritos.

          Em «Etudes Grégoriens» (N.º 1, 1954) há um Capítulo sobre os nomes dos neumas e suas origens (neste site, em seguida, a título de mera curiosidade, se apresenta um quadro sinóptico dos principais neumas, segundo notações de diferentes Escolas).


Ismael Hdez.